O Open Banking da energia chegou ao Brasil
A Portaria Normativa 111, publicada pelo Ministério de Minas e Energia em junho de 2025, estabeleceu 13 diretrizes para a digitalização das redes de distribuição de energia de baixa tensão. Entre elas, a de maior impacto: o Open Energy, um sistema que permite ao consumidor acessar seus próprios dados de consumo e compartilhá-los com agentes do mercado livre.
A analogia com o Open Banking é direta. Antes do Open Banking, trocar de banco era um processo burocrático. Depois, o cliente passou a ser dono dos seus dados e a portabilidade se tornou trivial. No setor elétrico, o Open Energy promete fazer o mesmo: o consumidor será dono dos seus dados de consumo hora a hora, e poderá compartilhá-los com qualquer consultoria ou comercializadora para receber propostas personalizadas.
Com mais de 16 anos atuando em comercialização de energia, vejo o Open Energy como o acelerador definitivo da abertura do mercado livre. A Lei 15.269/2025 criou o arcabouço legal. O Open Energy cria a infraestrutura de dados que viabiliza a migração em escala.
O que muda na prática
Para consumidores
Hoje, um consumidor que quer avaliar a migração para o mercado livre precisa solicitar seu histórico de consumo à distribuidora, esperar dias ou semanas pelo retorno, receber dados em formatos inconsistentes (PDF, planilha, sistema próprio) e entregar manualmente a cada consultoria que queira avaliar.
Com o Open Energy, o consumidor autoriza o compartilhamento digital dos seus dados de consumo (em formato padronizado) diretamente com a consultoria ou comercializadora de sua escolha. O processo que hoje leva semanas passa a levar minutos.
Para integradores e consultorias
O impacto para consultorias de energia é ainda mais profundo. Hoje, a maior barreira para prospectar clientes no mercado livre é obter os dados de consumo. Com o Open Energy, a consultoria poderá: receber dados granulares (15 em 15 minutos) de forma digital e padronizada, rodar simulações tarifárias imediatamente após a autorização do cliente, comparar dezenas de cenários (ACR vs. ACL, diferentes comercializadoras) em tempo real e apresentar proposta fundamentada na primeira reunião.
Na nossa experiência, o tempo entre "primeiro contato com o cliente" e "proposta fundamentada" cai de 2 a 3 semanas para menos de 1 dia com dados padronizados. Esse ganho de agilidade define quem fecha o contrato.
Para distribuidoras
As distribuidoras serão obrigadas a disponibilizar os dados em formato padronizado e interoperável. A ANEEL já abriu consulta pública sobre medidores inteligentes, que são pré-requisito técnico para o Open Energy funcionar em escala. A instalação massiva de smart meters está prevista para os próximos 3 a 5 anos.
O cronograma: quando o Open Energy será realidade
Fase regulatória (2025-2026)
A Portaria 111/2025 definiu as diretrizes. A ANEEL está conduzindo consultas públicas sobre medidores inteligentes e sobre as regras de compartilhamento de dados. A expectativa é que a regulamentação detalhada seja publicada entre o segundo semestre de 2026 e o primeiro de 2027.
Fase de implementação (2027-2028)
A instalação de medidores inteligentes em escala e o desenvolvimento dos sistemas de compartilhamento de dados devem ocorrer entre 2027 e 2028, coincidindo com a abertura total do mercado livre para baixa tensão.
Fase de maturidade (2029+)
A partir de 2029, o Open Energy deve estar plenamente operacional, com dados em tempo real disponíveis para qualquer agente autorizado pelo consumidor.
O impacto para o mercado de simulação tarifária
O Open Energy cria uma explosão na demanda por ferramentas de simulação tarifária. Quando milhões de consumidores puderem compartilhar dados com um clique, a consultoria que tiver capacidade de processar esses dados e gerar análises automatizadas terá vantagem esmagadora sobre quem ainda depende de análise manual.
Na nossa plataforma, já processamos mais de 40.000 perfis de consumo para simulações ACR vs. ACL. Com o Open Energy, projetamos que esse volume pode multiplicar por 10x nos primeiros 24 meses após a implementação, dado o volume de 70+ milhões de unidades consumidoras potenciais.
Riscos e desafios
Privacidade de dados
Dados de consumo de energia revelam padrões de comportamento. O framework de Open Energy precisa garantir que o compartilhamento ocorra apenas com autorização explícita do consumidor e com finalidade definida. A experiência do Open Banking mostra que é possível, mas exige regulação firme.
Padronização de dados
Cada distribuidora tem sistemas diferentes, formatos diferentes e granularidades diferentes. O sucesso do Open Energy depende de um padrão único e interoperável que todas as 53 distribuidoras do Brasil adotem.
Infraestrutura de smart meters
Sem medidores inteligentes, não há dados granulares para compartilhar. O parque atual de medidores no Brasil é predominantemente eletromecânico ou digital simples, sem capacidade de comunicação bidirecional. A transição para smart meters exige investimento das distribuidoras, que será repassado à tarifa.
Quem se posicionar agora captura o mercado
O Open Energy não é realidade operacional ainda, mas sua chegada é inevitável. As diretrizes estão publicadas, a regulamentação está em andamento e a abertura do mercado livre cria a demanda. Para consultorias e integradores, o momento de se preparar é agora: investir em capacidade de processar dados de consumo em escala, automatizar simulações tarifárias e construir fluxos digitais de atendimento.
Quando o consumidor puder compartilhar seus dados com um clique, a consultoria que processar e responder em minutos vai fechar. A que levar dias para "analisar" vai perder.
Leia também: Mercado Livre 2026: Abertura para Baixa Tensão | Simulação Tarifária ACR vs. ACL
