O que é peak shaving?
Peak shaving, ou corte de pico, é limitar a potência que a unidade retira da rede a um valor escolhido, o setpoint. Quando a carga da fábrica ou do prédio passa desse valor, a bateria entrega a diferença. Para o medidor da distribuidora, a curva fica mais plana: o pico não aparece.
O peak shaving não reduz o consumo de energia. A unidade continua usando os mesmos kWh, e um pouco mais por causa das perdas de carga e descarga da bateria. O que cai é a demanda em kW, que no Grupo A é cobrada à parte.
Como a demanda é cobrada no Grupo A
Quem é atendido em alta tensão paga duas coisas: a energia consumida (kWh) e a demanda (kW). A demanda medida é a maior média de potência em intervalos de 15 minutos dentro do ciclo de faturamento, e a distribuidora fatura o maior valor entre a demanda medida e a contratada. Um pico de 15 minutos define a demanda do mês inteiro.
Se a demanda medida passar da contratada em mais de 5%, a distribuidora soma à fatura a cobrança por ultrapassagem: o excedente multiplicado por duas vezes a tarifa de demanda. A regra está na Resolução Normativa ANEEL 1.000/2021.
Na tarifa Azul há uma demanda contratada para o horário de ponta e outra para o fora de ponta. Na tarifa Verde a demanda contratada é única, e o que pesa na ponta é o preço da energia. O horário de ponta são 3 horas consecutivas, definidas por cada distribuidora, nos dias úteis.
Peak shaving e load shifting: qual a diferença?
Peak shaving corta potência (kW). Load shifting, ou deslocamento de carga, muda de horário a energia consumida (kWh): a bateria carrega quando a energia é barata e atende a carga quando ela é cara, em geral no horário de ponta.
A mesma bateria pode fazer os dois. Na tarifa Azul, o ganho costuma vir de reduzir a demanda contratada de ponta. Na tarifa Verde, costuma vir de tirar da ponta o consumo de energia. Por isso a conta tem de ser feita com a tarifa e a curva de carga de cada unidade.
Como dimensionar a bateria para peak shaving
O dimensionamento parte da curva de carga da unidade. A potência da bateria (kW) é a diferença entre o maior pico e o limite que se quer manter. A energia (kWh) é a área da curva acima desse limite no evento mais longo: um pico de 200 kW acima do limite durante 2 horas pede cerca de 400 kWh úteis, mais a margem para perdas e para a degradação ao longo dos anos.
Três cuidados mudam o resultado. Primeiro, a resolução do dado: a demanda é medida de 15 em 15 minutos, e uma curva de médias horárias esconde picos curtos. Segundo, a recarga: recarregar a bateria na hora errada cria um pico novo, então a recarga tem de caber dentro da demanda contratada. Terceiro, a degradação: a capacidade útil cai com os ciclos, e a bateria precisa continuar cortando o pico no fim da vida útil, não só no primeiro ano.
Exemplo com tarifa homologada: quanto vale cortar 150 kW na ponta
O exemplo usa a tarifa do subgrupo A4 da CPFL Paulista homologada pela ANEEL (Resolução Homologatória nº 3.579, de 22 de abril de 2026), sem tributos. Na modalidade Azul, a demanda de ponta custa R$ 48,90 por kW por mês, e a demanda fora de ponta, R$ 16,53 por kW.
Primeiro caso, a demanda contratada. A unidade contrata 500 kW na ponta. A carga chega a 500 kW e só passa de 350 kW por até 2 horas. Uma bateria de 150 kW com 300 kWh úteis, antes da margem para perdas e degradação, segura esse trecho, e a unidade passa a contratar 350 kW. São 150 kW a menos: R$ 7.335,00 por mês, R$ 88.020,00 por ano. O valor é só o da demanda: não desconta o custo da bateria, não inclui tributos, nem a energia que a bateria desloca da ponta para fora dela.
Segundo caso, a ultrapassagem. Com 500 kW contratados fora de ponta, a tolerância de 5% vai até 525 kW. Um pico medido de 560 kW passa disso. A fatura cobra os 560 kW medidos, R$ 991,80 a mais do que os 500 kW contratados, e soma a ultrapassagem: os 60 kW excedentes vezes duas vezes a tarifa de demanda, R$ 1.983,60. Esse pico de 15 minutos custa R$ 2.975,40 a mais naquele mês.
A conta muda com a distribuidora. Entre as 34 do levantamento da tarifa de ponta, a demanda de ponta da Azul vai de R$ 31,27 por kW (Neoenergia Brasília) a R$ 118,54 por kW (Energisa Rondônia), em tarifas lidas em 02/10/2026. Os mesmos 150 kW a menos valem de R$ 56.286,00 a R$ 213.372,00 por ano. A tabela mostra as 5 áreas de concessão com mais unidades do subgrupo A4 na base do Energy BRAIN.
| Distribuidora | Demanda de ponta na Azul (R$/kW) | 150 kW a menos, por ano (R$) |
|---|---|---|
| CPFL Paulista (SP) | 48,90 | 88.020,00 |
| Cemig (MG) | 71,13 | 128.034,00 |
| Copel (PR) | 54,13 | 97.434,00 |
| Enel São Paulo (SP) | 31,75 | 57.150,00 |
| Celesc (SC) | 41,83 | 75.294,00 |
Tarifas de aplicação do subgrupo A4 homologadas pela ANEEL, lidas nos dados abertos da agência em 02/10/2026, sem tributos. O ranking das 34 distribuidoras está na página da tarifa de ponta por distribuidora, no fim deste guia.
Quando o peak shaving se paga
O retorno é melhor quando os picos são altos e curtos: uma bateria pequena corta muitos kW de demanda. Em uma carga alta e constante, a bateria teria de ser grande para baixar pouco a demanda, e o retorno piora.
Os sinais de que vale estudar são ultrapassagem de demanda recorrente na fatura, demanda de ponta contratada na tarifa Azul e picos causados por poucas máquinas ou por partidas simultâneas. A energia solar ajuda pouco nesse ponto, porque o horário de ponta costuma cair no início da noite, quando a geração já acabou. É aí que a bateria completa o projeto.
Para comparar com outras saídas, como gerador a diesel na ponta ou aumento da demanda contratada, a métrica é o custo nivelado de armazenamento (LCOS).
Como o Energy BRAIN simula o peak shaving
O Energy BRAIN simula a bateria hora a hora sobre a curva de consumo da unidade, com a degradação ao longo dos anos e a recarga dentro da demanda contratada. No mesmo estudo ele compara 8 cenários tarifários, de cativo e de mercado livre, em 32 combinações com solar e BESS, mostra a fatura de cada uma e entrega payback, TIR, VPL e LCOS do cenário escolhido.